

NÃO REPARE
NA MINHA DESPENSA
Jornalismo Multiplataforma
O retrato da fome no Brasil e os rostos da insegurança alimentar
São Paulo, capital. Cidade corrida, carros passam, horas corridos, horas parados em extensos KM de trânsitos, que ligam o centro da cidade grande, até os extremos em seus arredores.
De Leste, Sul, Norte e Oeste, a quem trabalhe para ter o seu pão diário e a quem, esmagados e engolidos pelas desigualdades e a falta de assistência política, viva na luta diária para ao menos conseguir o pão de um dia ou talvez, quem sabe de mais alguns.
Entre horas em um trânsito, a fome se faz presente. Para quem chega em casa e deseja um prato quente para saciar a sensação que te consome estômago a fora. A frustração de pensar na culpa de não poder comer mais por talvez aquele excesso cometido no dia, transforme-se em falta no amanhã.
A culpa de se comer para além do que é possível. O aprendizado que muitas famílias repassam aos seus primogênitos, a comida deve render para muitas bocas. Entre manobras e artimanhas, nem sempre a matemática é exata. Falta. Mas não se engane, não há bocas culpadas para essa escassez.
Essa realidade tem um nome, Insegurança Alimentar, ocorrendo quando não há uma quantidade de alimentos o suficiente todos os dias para preencher a fome de quem é atingido. No Brasil, a medição para conseguir ter um panorama de quantas famílias vivem nessa situação é feita a partir de uma cartilha chamada Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). Com 14 questões, as pontuações das perguntas respondidas, identificam qual o nível de vulnerabilidade alimentar estão.
Essas três classificações são: leve, quando se tem uma preocupação ou incerteza de acesso aos alimentos. A moderada, com uma redução qualitativa na alimentação, em especial nos adultos, tendo ou não uma diminuição ou ruptura nos padrões alimentares, justamente provocados pela falta dele e, a grave, aquelas pessoas, tanto maiores de idade quanto as crianças têm a diminuição de alimentos em qualidade e quantidade.
Porém, o Brasil já saiu e adentrou o mapa da fome diversas vezes. Uma delas, no período mais marcante da história mundial, a pandemia da COVID-19. Descontinuação de políticas públicas e locais que poderiam alimentar a população se fecharam, sendo alguns dos efeitos que a crise sanitária provocou. Para entrar ou sair do mapa da fome, o país precisa estar abaixo ou acima do PoU (Prevalência da Subalimentação). O conceito surgiu justamente pela ONU (Organizações das Nações Unidas), medindo a quantidade de alimentos, o consumo das pessoas em relação a ele, renda, necessidade calórica e os níveis de desigualdades que a população pode ter.
Durante os períodos de 2022 e 2024, o país ficou abaixo dos limites de 2,5%, saindo assim novamente do mapa da fome. Mas ainda existem pessoas passando pelo processo de Insegurança Alimentar, de acordo com os dados do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA). A falta de alimentos em quantidade e qualidade atingem 5,8 milhões de brasileiros e, ao olhar de forma atenta para a capital paulistana, essa vulnerabilidade atinge 1,4 a 1,5 milhão.
Além da Insegurança Alimentar, a Nutricional também aparece acompanhando a vida dessas pessoas: “Uma é voltada para a disponibilidade do alimento, de que essas famílias terão ou não a segurança de ter essa refeição. A falta nutricional é pela falta de acesso a alimentos de qualidade”, comenta a nutricionista do Instituto Movere, Tatiane Damaceno. Quantas bocas, ao sentir justamente a insaciedade da fome, comem em um dia e no seguinte são surpreendidas por seu armário e geladeira vazios? O acesso é importante, mas quais acessos essas pessoas têm? A quais alimentos ela pode ter acesso?
Um país que atinge o quarto lugar em maior produção agrícola do mundo, levando cerca de 161,3 milhões de toneladas para diversos países, de acordo com os dados da própria Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), ainda deixa pessoas em situações desconfortáveis com os estragos que a fome pode causar. Os mais afetados aparecem nas minorias já esquecidas ou ignoradas pelo Brasil. 58,6% se encontram entre as mulheres, 58,1% atinge pessoas negras e/ou pardas, 2,3% pessoas idosas, enquanto os outros são: indígenas, quilombolas e pessoas em situação de rua.
Se alimentar é sinônimo de poder, a realidade vivida em tantos lares não parece se relacionar bem com o mundo digital. Em que, alimentação balanceada, cuidados rotineiros com acompanhamento de nutricionistas e um cronograma extenso de exercícios parece ser somente um objetivo de desejo de vida ostentados por influenciadores que aparentam não possuir grandes dificuldades na vida.
E essa alimentação saudável não será a realidade da maioria dos brasileiros em 2026. Na pesquisa conduzida pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os alimentos ultraprocessados caíram 16% no seu valor ao decorrer de cinco anos e, irão cair mais ainda no ano que vem. Os in natura, conclamados pelos com mínimo poder aquisitivo, começam a se tornar menos populares. Causando incertezas na alimentação e futuramente problemas de saúde, já que esses alimentos são muito mais ricos em sódio, gordura e açúcar.
Com isso, algumas pessoas ao observar a contrastante realidade vivida pelos seus iguais e por esses influenciadores, lutam por formas de remediar os reflexos da Insegurança Alimentar, assistindo diversas famílias ou pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade alimentar ou até mesmo de vida. Como é o caso do Padre Júlio Lancellotti, conhecido por lutar há 40 anos na defesa dos direitos civis de pessoas marginalizadas. O sacerdote católico e pároco da conhecida Paróquia de São Miguel Arcanjo, localizada na Mooca, zona leste da capital de São Paulo, sempre com seus trajes simples no seu dia a dia, ganhou notoriedade por atuar diretamente com aqueles vitimizados por situações vulneráveis ou de vício.
Em sua missa de domingo, com roupas diferentes das habituais usadas com simplicidade - com sua casula e túnica verde -, ele reforça os dados com um olhar baseado na vivência diária com a Pastoral do povo da rua da arquidiocese de São Paulo: “a pobreza não diminuiu na cidade de São Paulo, porque vivemos em uma estrutura que tem como elemento fundamental a desigualdade. O neoliberalismo gera desigualdade e descarte. Quanto mais o capitalismo se aperfeiçoar, mais gente descartada haverá”.
Insegurança Alimentar, mapeada, datada, estudada e vivida na pele de tantos brasileiros, mesmo em meio a retirada do país do mapa da fome em 2025. Inúmeros são os motivos que podem ser considerados para tantas pessoas vivenciarem essa realidade. Mesmo com as ajudas de diversas pessoas, a fome ainda persiste e permanece: “não se trata de ajudar os pobres, mas de fazer justiça social. Podemos diminuir [a insegurança alimentar] de alguém por um dia, uma semana, um mês, mas não fazê-la desaparecer. É um processo histórico, difícil e demorado”, continua padre Júlio Lancellotti.
Embora a percepção crítica sobre os contrapontos dessa via dupla que é a vida, a quem em tantas dificuldades, nem tenha tempo para pensar sobre o tema. Os números podem até ajudar a dimensionar a gravidade do problema, mas não nos revelam os rostos, nomes, os endereços, famílias e as histórias dessas pessoas.
Crédito: Danilo Ferreira, Giovanna de Moraes, Hanna Kauanin Magalhães e Maria Rita Coutinho

Crédito: Danilo Ferreira
Entre o amor materno e a escassez alimentar de uma família atípica, Gisele e Isabel
Domingo, 10h30 da manhã. Gisele levanta para nos receber com a sua voz doce, ela avisa que já vai abrir o portão. O dia está quente e ensolarado, sua fiação improvisada é responsável por manter um ventilador pequeno para esfriar o ambiente para ela e Isabel. Sua casa têm uma única janela que não é o suficiente para espalhar o ar para o único cômodo em que ambas vivem.
Telhado de zinco, com alguns furos em cima da cama, parede só de tijolos. A luz atrás de sua televisão antiga ligada em uma única extensão, são distrações para Isabel, que é uma pequena criança no corpo de uma mulher de 21 anos já formada. O barulho vindo da TV, cuja programação ou conteúdo não importa, traz calmaria à pequena Isabel. Que por incômodo de uma noite mal dormida, em uma cama afundada, se encontra agitada em sua cadeira de rodas.
Essas casas de um único cômodo também fazem parte da realidade de outros 400 mil brasileiros, de acordo com o censo demográfico de 2022, do IBGE. Muitas vezes dividindo o espaço não apenas com seus filhos, mas com suas mães, pais, avós e netos.
Nossa presença pareceu trazer um misto de emoções manifestadas em barulhos bocais, não verbais de Isabel. Gisele ainda está desarrumada, de touca para esconder os cabelos encaracolados que pela demanda que os cuidados de sua filha exigem ela não teve tempo para arrumar.
Ainda de pijama, sem tomar seu café da manhã, Gisele tímida sugere para que não prestemos atenção na bagunça de sua pequena casa. Isabel, por outro lado, já estava em sua cadeira e de mamadeira tomada. Mesmo sobrecarregada com diversas contas e sem uma renda fixa para complementar o “Benefício de Prestação Continuada” (BPC) LOAS, que recebe no valor de R$ 1.518,00, Gisele faz o possível para garantir o mínimo de conforto à filha. Isabel, por conta de sua condição, tem grandes dificuldades para se alimentar. A jovem não consegue ingerir alimentos sólidos, dessa forma, leite e iogurte fazem parte da sua principal fonte de nutrição.
Assim como Gisele, outros 60% dos domicílios têm uma renda per capita abaixo de ¼ do salário mínimo e, que passam pela situação da Insegurança Alimentar, de acordo com os dados do próprio IBGE. Essas famílias operam quase verdadeiros milagres ao viverem com tão pouco em uma cidade como São Paulo.
“A insegurança alimentar e nutricional pode sim afetar mães e crianças atípicas, até porque muitas vezes essas famílias não têm recursos o suficiente. Muitas vezes a mãe tem que deixar o trabalho, ou às vezes a mãe vive de algum auxílio, tem essa questão… Então isso acaba impactando a quantidade de alimentos que tem na casa. E junto com isso, tem a questão da seletividade alimentar, que é bem presente no caso de pessoas atípicas”, comenta Tatiane. As seletividades alimentares podem afetar a saúde dessas pessoas, sendo nos casos de crianças o crescimento e desenvolvimento. A nutricionista ainda complementa: “é um público que fica bem exposto a essa situação.”
Enquanto nos questiona do por que da demora desde nossa última visita, ela vai até seu quintal, enche uma vasilha plástica para escovar seus dentes. A pia de lavar sua louça fica do lado de fora, não cabe em seu quarto e banheiro. No espaço muito improvisado, Gisele tem um guarda-roupa que foi comprado a prestações e pago a muito custo. Após se ajeitar meramente, o diálogo começa.
Ela conta que a noite não foi fácil, embora seja trabalhoso sair diariamente em busca de mantimentos, Gisele vê o lado positivo da jornada. Pois segundo a mesma, é uma forma que encontrou de manter a filha calma durante a noite. Isabel, que havia trocado recentemente seus remédios para dormir, ainda não havia se adaptado. A jovem estava sofrendo com o cansaço e a inquietação que, desde o nascimento com sua condição, era sentença.
Conhecemos Gisele em uma noite fria de agosto, durante a pesquisa de campo para essa reportagem, ao lado dos voluntários do Anjos da Noite, uma ONG que leva marmitas, cobertas e roupas para pessoas em situação de vulnerabilidade. Ela estava lá, na fila da marmita. Seu jeito acanhado chamou atenção. Estava arrumada, em sua companhia, estava Isabel, toda coberta com uma manta rosa felpuda.
Nos aproximamos dela, para saber se precisava de mais marmita. Gisele por sua vez, meio atrapalhada tentando administrar a cadeira de rodas e uma sacola velha retornável informará que não havia necessidade, pois sua filha não se alimentava com coisas sólidas, e aquela refeição seria suficiente para ela.
Meio tímida, como se estivesse cometendo um delito, Gisele sussurra baixo “vocês têm kit de higiene?”. Prontamente, fomos checar a informação e o retorno dos outros voluntários havia sido negativo. Que missão difícil retornar com aquele não. Caminhando até ela, pensando no tom adequado para dar a notícia.
“Dona Gisele, infelizmente hoje a gente não trouxe kits higiene para serem distribuídos…” Ela por sua vez, com semblante de certa decepção, mas já esperando a informação, abre um sorriso e prossegue: “ah, tudo bem… geralmente eles não trazem mesmo, é que faz três meses que eu não consigo pegar fraldas para Isabel.”
Claro, que ali, diante daquela informação, saindo do papel de jornalistas, tomamos a decisão de conseguir esse kit de higiene para ambas. Ao sugerir que iríamos levar para ela, pedimos um contato e Gisele que não tinha um aparelho celular prontamente passou seu endereço. Levamos o que a mulher necessitava e prometemos voltar, Gisele esperou e nos cobrou quando voltamos pela demora.
Um laço foi criado de fato. Continuamos daqui, da nossa segunda visita. Gisele prossegue em sua história:
Isabel não é filha única, gemelar, sua irmã veio a falecer aos 10 meses, ambas com paralisia cerebral. Ester não aguentou por ter uma condição mais agravada e veio a falecer por erro médico durante uma internação. Naquela altura, sendo mãe de duas crianças especiais, ela não pensava no trabalho futuro que as duas gerariam. Na verdade, só pensava no amor que sentia pelas filhas e hoje pela falta que sente. Embora reconheça que, seria impossível cuidar de ambas, levando em consideração as demandas que atende apenas com Isabel.
Alívio um pouco triste. Gisele segue o padrão que a maioria dos lares brasileiros possuem. Mulher negra e mãe solo. Até alguns meses depois do parto, seguiu, aos 20 anos, com o relacionamento com o pai da menina, mas ele possuía uma vida no crime, não auxiliava nas demandas da casa e era agressivo com ela. Sem saber como iria se virar, optou por romper o relacionamento e, nunca mais teve notícias dele. Ele também nunca mais à procurou ou demonstrou interesse em se aproximar de sua filha.
Ser mãe solo, ainda faz parte de um retrato da sociedade brasileira. De acordo com uma pesquisa do Jusbrasil, 61% das mulheres que são mães solteiras, são mulheres negras, totalizando por volta de 6,9 milhões de mães nesse tipo de condição. Mostrando outro agravante no racismo estrutural brasileiro, o estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) de 2022, revela que 65% dos lares chefiados por mulheres negras e/ou parda sofrem de Insegurança Alimentar, em comparação com 46% dos lares que são chefiados por pessoas brancas.
Mesmo em meio a inúmeras inseguranças, Gisele encontrou a possibilidade de amar de novo. Seu marido, de quem hoje é viúva, supriu as demandas que ela possuía, proporcionando um relacionamento de companheirismo e cuidado, além de suporte nos cuidados de Isabel.
Sua única lembrança material dele é a casa em que mora hoje. No mesmo quintal da mãe de consideração de Gisele, para proporcionar um pouco de sossego e privacidade, ele levantou o pequeno lar, a base de tijolos, cimento e um telhado simples. Sem compreender muito bem o distanciamento nos poucos momentos em que ela citava sua mãe, logo a revelação adentrou a história, sua mãe na verdade era sua tia, contou ela em um tom de mágoa. A justificativa para se morar a poucos metros de distância era pelo fato da senhora sempre mantê-la sob rígidos controles, mesmo depois de adulta.
As dificuldades sempre foram presentes, mas a fome nunca foi uma possibilidade enquanto seu marido estava vivo e sua filha ainda era criança. Além disso, Gisele tinha antes como contar com o assistencialismo público, mas, por conta das normas burocráticas das instituições voltadas para o cuidado com essa população, teve a filha descadastrada ao atingir a maioridade.
Segundo Gisele, após seus 18 anos, sua filha foi descadastrada da famosa AACD, Associação de Assistência à Criança Deficiente e, de outros programas que proporcionavam a ela cuidados como: fisioterapia intensiva e o direito de uma cadeira de rodas novas conforme fosse crescendo.
Nossa equipe entrou em contato com AACD, porém não obteve respostas.
Isabel, usa uma cadeira de rodas que não comporta mais seu corpo, para ser mais confortável, Gisele tenta colocar cobertas em baixo para que a menina não sofra tanto com o desconforto do item que na verdade já faz parte de Isabel.
Narrando sua história, entre tragédias e o exercício da maior capacidade humana, que é encontrar pontos positivos no meio de tanta tristeza, Gisele nos mostra as fraldas guardadas de maneira organizada em cima de seu guarda-roupa. Na sequência ela mostra o lado de Isabel no móvel. As roupas vindas na sua maioria de doações, foram lavadas e passadas no dia anterior, dobradas e organizadas, ela conta com orgulho de que tudo é sempre feito de forma caprichosa para sua filha.
Gisele, o sorriso automático em seu rosto, escondendo exatamente a dureza que ao chegar em um determinado momento da vida, se percebe que suas lágrimas não são dolorosas o suficiente. Nem ao menos para conquistar de forma breve a comoção de pessoas que poderiam estender seu apoio, para que o fardo não fosse tão pesado de se carregar.
Olhar curioso, voz tímida e seus braços fortes provindos de 21 anos empurrando vários modelos de cadeira de roda, escondem uma mulher de inúmeras camadas. 41 anos marcados, por tantas inseguranças. A quem veja sua situação atual e acredite que a Insegurança Alimentar seja o seu maior problema. Mas a falta de uma moradia digna, e apoio social para a criação de Isabel e até mesmo para a sua existência como pessoa, mulher e mãe, podem entrar nesse pacote de temas mais delicados para a presunçosa tentativa de descrever Gisele.
Abandono. Para os olhos atentos e observadores, é necessário ter junto ouvidos atentos e poucas ideias formadas sobre os “porquês" e os “comos” Gisele chegou nessa situação de vida. Alimentar-se adequadamente é importante, assim como provavelmente saber a sua própria origem de vida e nascença.
Na verdade, saber a origem de tudo, responde a dúvidas profundas que, embora não mudem situações atuais, podem dar um mínimo norte de vida. Como para quem recorrer em momentos de desespero e desamparo. A fome tem origem, diversas. A fome tem semelhanças. A fome tem alguns rostos estereotipados. Gisele tem origem, mas não sabe quem são seus pais. Gisele tem pais, mas foi privada de ter minimamente contato com eles, Gisele não sabe quem são. Gisele não conhece seus semelhantes. Apenas uma tia, que a trata como filha.
Em um misto de sentimentos, entre gratidão, compreensão e tons de ressentimentos, Gisele cita a mulher poucas vezes na conversa. Ao ser perguntada se sua tia/mãe ajudava com os cuidados, ela conta que a senhora, mais atrapalhava do que ajudava. Neste momento, ela nos mostra do lado de fora o pé de mamão que havia sido tombado no dia anterior pela senhora, atrapalhando sua passagem com a cadeira de rodas de Isabel.
Gisele não sabe se tem tios, irmãos, primos ou outros parentes, na juventude rebelde antes de ser mãe, ela insistiu para arrancar a informação de todas as formas, e mesmo assim sua tia se negava a contar. Sempre reforçando o excesso de zelo que mais a prendeu do que a fez se sentir amada.
Outras crianças brasileiras, também acabam desconhecendo suas origens, de acordo com os dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), no ano de 2023, cerca de 172 mil crianças foram registradas sem o nome do pai na certidão de nascimento. Porém, dados mais recentes mostram que 5,5 milhões de crianças não têm esses registros. Enquanto 43,9 mil crianças não conhecem, ou perderam seus pais desde muito cedo.
Nesse momento que ela conta sobre si, relembra que foi criada “jogada” por sua tia, que não se importava se ela ia ou não para escola, se comia ou não de maneira saudável e se ela tinha ou não um namorado. Quando se tornou mãe, Gisele relata que sua tia ao saber do diagnóstico de suas filhas, não demonstrou se importar sobre a sua maturidade ou capacidade para lidar com os desafios da maternidade atípica.
Uma pesquisa do Jusbrasil também reforça que 80% das mães atípicas são mães solos, o que consequentemente se refere a uma falta de rede de apoio. Ainda de acordo com o estudo, 78% dos homens abandonam seus filhos e suas companheiras quando descobrem sobre a neurodivergência dos filhos. Assim como o pai de Isabel e Ester, que as abandonou.
Gisele nem sabe, mas já era mãe de si mesma antes mesmo de ser mãe de Isabel e Ester. Como ensinar a Gisele que ela é digna de alimentações saudáveis, quando foi ensinada em sua infância de que, frutas e legumes fazem mal? Como dizer para Gisele que, o básico também é seu direito, quando ela foi renegada pelo mais básico que é conhecer seus pais?
Gisele, antes mesmo de se tornar mãe, conhecer as dificuldades que seu futuro (cruel) lhe reservava, conheceu a privação. Em repetidas negligências, teve sua existência negada desde quando nasceu. Por Isabel, Gisele nutre amor e dependência. Por si, talvez ela nem saiba que pode. Talvez a fome de Gisele, nem seja somente de uma vida segura, sem a necessidade de sair pelas ruas igual aos nômades atrás de recursos. Sua fome é de afeto, carinho e presença.
A insegurança alimentar faz parte da rotina de Gisele por múltiplos motivos. Ela não pode trabalhar, pois não tem com quem e nem onde deixar Isabel, e o espaço da casa é mínimo, o quarto também serve de cozinha e lavanderia. As limitações de saúde da filha agravam o quadro, já que o custo dos cuidados diários aumenta sempre que o sistema público de saúde falha na entrega de insumos essenciais.
Ser ensinada de que algum alimento não faz bem, ou que não pode fazer parte da sua alimentação, acaba trazendo prejuízo no futuro. Tatiane comenta que muitas pessoas acabaram perdendo os hábitos de cozinhar, não sabendo mais de onde vem determinado alimento ou não. As famílias já não cozinham mais juntas, um hábito cultural que se perdeu nos lares brasileiros.
Um dos maiores desafios é a obtenção dos materiais de higiene que Isabel utiliza. Quando o fornecimento mensal atrasa ou é interrompido, Gisele precisa pagar R$80,00 ao entregador que busca os itens no Bom Retiro (zona Oeste), a quase 20 quilômetros de distância de sua casa. Sua história, infelizmente, não é exceção, reflete a realidade de muitas mães que cuidam de filhos com deficiência em condições semelhantes.
Justamente os itens que Isabel mais precisa, são os que mais faltam nos postos de saúde da cidade. De acordo com dados da Prefeitura de São Paulo e outras pesquisas, os itens que mais faltam no Sistema Universal de Saúde (SUS) são: órteses, próteses, cadeiras de rodas, outros meios auxiliares na locomoção, insumos e medicamentos para usos contínuos e específicos.
Para garantir a própria alimentação, Gisele frequentemente percorre longos trajetos da zona leste ao centro de São Paulo, onde sabe que conseguirá uma refeição para si e para Isabel. Faz o percurso quase todos os dias do mês. Quando não consegue, sobrevive com alimentos ultraprocessados, mais baratos, porém menos nutritivos.
Os ultraprocessados acabam entrando na vida das pessoas como uma solução rápida e barata para o seu maior problema. Aquele que lembra a todos que também temos instintos, a fome: “as pessoas buscam praticidade e os produtos ultraprocessados nos permitem isso, a coisa de estar prático, de estar fácil, de estar pronto… E a gente percebe que as pessoas acabam buscando, ‘ai tô cansado, vou preparar comida?’ Não, vou comprar a que tá pronta. Esses alimentos podem fazer parte da alimentação, só não pode ser todo dia”, explica Tatiane para nós.
Gisele é uma em tantas outras mulheres espalhadas por São Paulo que vivem a luta diária de equilibrar pratos vazios em diversos sentidos para manter a sobrevivência. Sobreviver em um contexto social em que a mulher negra está à margem, à margem do amor. A margem do afeto. A margem da sobrevivência.
A força que equivocadamente utilizamos para enaltecê-la, não deveria se enquadrar no viés do elogio. Muito menos pena. O reflexo de sua história é a sentença social que não a faz viver em uma perspectiva de melhora. Apenas de viver somente mais um dia.
Da graça a graças infelizmente. Só é possível colher o imenso amor que, mesmo a tantas batalhas. Gisele ainda é digna de nutrir pelo seu próximo.




Crédito: Danilo Ferreira
Crédito: Danilo Ferreira
Crédito: Danilo Ferreira
Crédito: Danilo Ferreira
Entre a solidão e a escassez alimentar, Lívia Helena
Sábado, de garoa. Céu nublado em meio a um mormaço e ventania branda. 13h da tarde. Entre as filas que dividiam aqueles que só estavam ali para pegar sua marmita ou para se alimentar no local cedido pela ONG Ibrasac, um restaurante pequeno com algumas mesas e cadeiras.
Entre as mesas divididas por aqueles que criaram uma comunidade coletiva de contato, ou famílias completas nos moldes atuais que raro possuem um pai presente. Mulheres em sua maioria pardas ou negras com seus filhos fazendo da dificuldade um momento de descontração, pertencimento. Idosos e idosas, solitários em seu dia a dia, com suas amizades adquiridas lá.
Cozinha Escola, localizada na periferia do bairro do Limão, na zona norte de São Paulo, sob a preocupação de quem se voluntaria para servir comida, afeto e atenção, iniciou suas atividades naquele dia, logo pela manhã. Deixando tudo pronto, organizado e limpo para assistir todos com amor e a devida dignidade.
Um final de semana antes do conhecido dia das crianças, Livia Helena estava lá. Ela não se enquadra no perfil da mãe solo com sua prole presente na ONG, tão pouco se enquadra no perfil de idosos. Excluída nesse cenário, que não a faz ser exceção nos parâmetros da insegurança alimentar.
Mulher negra, de 53 anos, com o rosto marcado por escolhas erradas que ela reforça, entre uma história e outra. Lívia Helena reflete o misto entre arrependimento e a culpa de ter passado por um relacionamento abusivo e destruidor. Falam que o corpo fala, de fato, as cicatrizes em sua face, seus dentes prejudicados e, a marca ainda muito recente do incidente que viveu, resultando a perda de seu olho, nem de longe exprimem a dor que está mulher sobrevivente passou.
Para quem, um dia teve tudo, estar vivendo nessa situação de não ter o que comer, pode ser a materialização dos pesadelos mais sombrios da vida adulta, mas que é realidade para outras mulheres negras que vivem à margem da sociedade.
Mãe de três mulheres adultas e avó de uma menina. Formada no Instituto Embelleze como cabeleireira, hoje Livia Helena é uma sobrevivente da Herpes Zoster e vive em tratamento do HIV que contraiu de seu ex-marido. O ex-companheiro atualmente se encontra preso, não por tê-la agredido, mas por ter entrado para o mundo do crime. Lívia Helena já teve apartamento, carro e uma carreira como especialista em luzes capilares, porém teve sua vida arruinada pelo homem com quem casou. Um amor frágil. Lívia não perdeu apenas seus bens materiais. Mas, após anos em um relacionamento tóxico, perdeu seus bens sentimentais e também sua família, que a vendo nesse trágico presente, optaram por se afastar. Até hoje, há muita mágoa entre ela e as filhas, que escolheram se manter distantes da mãe, mesmo após a separação com o homem.
Encontramos ela, ela nos encontrou.
Sua realidade atual, na qual vive o nível mais agravado da insegurança alimentar, inicia-se no casamento com o ex-marido, do qual ela não revelou o nome. Este que era adicto, abusivo e envolvido com o tráfico. Utilizou de todos os recursos financeiros que ela possuía para manter seu vício. Entre uma traição e outra, ele contraiu Herpes e HIV, o que resultou na transmissão para ela.
A propagação do HIV, infelizmente, não faz parte apenas da vida de Lívia Helena. Sendo mais recorrente na população negra e, ainda mais, entre as mulheres negras. Em 2023, no Boletim Epidemiológico, 62,8% dos casos de HIV e AIDS ocorreram entre pessoas negras. Dessa porcentagem, 13% entre pessoas autodeclaradas negras e 49,8% entre pardos. Os números ganharam rostos e, a maioria dos rostos das 61,7% pessoas que acabam falecendo pela AIDS, são de mulheres negras, abandonadas por aqueles que um dia compartilharam sentimentos.
A data de nossa visita, era próxima ao dia das crianças e, nossa maneira de apoiar o trabalho da Gláucia, fundadora do projeto Ibrasac, foi preparando e levando saquinho de doces para os pequenos que iriam fazer sua refeição ali naquele dia. Lívia Helena então, se aproxima de nós após almoçar e pede doces, acanhada esperando o maltrato, pediu o que sua criança interior precisava.
Ganhou o seu saquinho e com um ar brincalhão, reforçou que não era criança, mas precisava de um doce, mas na verdade precisava mesmo de afeto. Ela ali, com sua blusa branca, jaqueta jeans e chinelo no pé parecia se esconder de perguntas impertinentes sobre o que ocorrerá com seu olho. Puxamos assunto, e ela inverteu os papéis. Se tornou a jornalista ousada que todo jornalista sonha em ser. Desnudada e sem medo. Claro, a vida lhe obrigou a ser assim.
Ao perguntarmos se ela poderia conversar conosco ela retrucou com uma pergunta mais profunda “o que vocês querem saber de mim? Não há nada de interessante em mim. Já sei, querem saber como perdi meu olho?”. No fundo, a história dela parecia ser mais interessante do que o incidente que ela ainda estava tentando se adaptar. Mas pensamos… Quantas vezes aquela mulher deve ter recebido essa pergunta durante um ano desde que o ocorrido aconteceu?
A mulher de estatura baixa e corpo franzino, colocou à prova o que aprendemos sobre ética jornalística em diversos momentos. Esse foi o primeiro desses. Prosseguimos e entendemos que ali não deveríamos colocar a necessidade de ter um relato como prioridade e sim, mergulhar nas camadas que Lívia Helena demonstrou.
No que tange os níveis dos critérios de definição para se estabelecer qual é o grau de insegurança alimentar que alguém vive, Helena vive em seu ponto mais elevado. Entre as perguntas com respostas rápidas, o desconcerto de revelar sobre sua vivência atual. Lívia Helena hoje, sobrevive em um barraco dentro de uma boca de fumo. Por conta de sua situação, teve a compaixão dos responsáveis pelo local, para poder se alojar ali. Entre doações de marmita ou refeições feitas na Ibrasac, Livia Helena passa seus dias recolhendo latinhas para conquistar uma renda que seja. Suas mãos contam com mais detalhes esse meio de sobrevivência.
Durante a entrevista, nós ficamos de mãos dadas, suas unhas das mãos curtas, com calos e grossas remontam o que é passar por isso. Não há espaço nesse contexto para auto cuidado, do que ela sente falta. De seus cabelos longos, de roupa macia e cheirosa, de um lar com sua cara e de ter o prazer de cozinhar suas refeições.
Sobre o caso da alimentação de pessoas com doenças semelhantes ou as mesmas de Lívia Helena, a Tatiane comenta: “a pessoa precisa ali ter uma imunidade boa, para poder ter uma melhor qualidade de vida diante dessas doenças e, a alimentação impacta bastante nisso. Então a pessoa já fica com a imunidade fragilizada, fica impactada… E o organismo também, porque muitas vezes o organismo vai tolerar o remédio, ajudar na absorção de alguns medicamentos. Então se a pessoa não tem essa boa alimentação, essa variedade pode acabar sendo prejudicada.” Existe também a possibilidade da perda de massa magra e massa muscular, a perda de peso provocada pela falta de uma alimentação adequada todos os dias, prejudica no tratamento.
Quando não tem forças para ir até a ONG, ou, nos dias em que a instituição se encontra fechada, ou Livia Helena fica com fome, ou se alimenta de pães. Ela ama pães, na verdade, esse foi o único alívio sobre lembrança que teve, quando se foi questionado sobre o que ela comia quando não tinha comida, nos respondeu que amava comer pão e que era essa a sua fonte de nutrição nos dias mais difíceis.
Os detalhes dessa personagem foram pouco explorados em conversa, mas, a definição da fome pode ser compreendida pelos olhos atentos que estejam dispostos a compreender as camadas que a insegurança alimentar severa pode causar.
O agravante para o seu caso, intrinsecamente podem ser considerados devido a sua situação de saúde atual. Segundo Lívia Helena, a um ano atrás pela falta de recursos financeiros, ela acabou passando pela situação extrema de ter sua região da face e cabeça corroídas por vermes, que para a própria, se justifica no agravamento de sua herpes. Sua irmã que é enfermeira levou ela para o hospital na ocasião. Chegando no local seu olho já debilitado, estourou, causando uma hemorragia severa.
Os buracos que ficaram em suas bochechas e cabeça receberam pontos, mas a região que ficava seu globo ocular continua vazio e exposto já que, ela não possui condições para comprar o tampão e muito menos para ir todos os dias fazer curativo em algum hospital. Livia Helena vive a dificuldade da adaptação em enxergar com somente um olho. O que torna impossível cozinhar para si mesma.
Com a falta de uma alimentação correta, outros problemas de saúde também podem aparecer: anemia, dificuldades cognitivas, perda de memória, queda de cabelo, deficiências de vitaminas e minerais, diabetes e o câncer. “Existe uma fome oculta, em que as pessoas consomem calorias, mas não nutrientes. Isso afeta o corpo e a mente” comenta Tatiane. Com a má alimentação, ou a falta dela, depressão, ansiedade e estresse também surgem… Como continuar pensando e tendo forças, tanto figurativamente quanto na sua realidade, de barriga vazia?
Nos dias de ida ao hospital, Livia Helena pede carona no ônibus. ela perdeu seus documentos, o que também torna a situação mais problemática, já que não consegue dar entrada em uma solicitação para a aposentadoria por invalidez. Sua rotina é dividida entre a dor de sentir fome e a dor do seu olho, seus recursos adquiridos com a coleta de recicláveis nem de longe superam os custos com seu tratamento, que envolve remédios caros para a Herpes Zoster que giram em torno de R$ 250,00.
Ao questionar como eram suas refeições durante os dias da semana, ela só recordou da frequência em ir até a ONG para se alimentar, fora o apoio da instituição, ela não tem uma alimentação recorrente. O que dificulta em sua melhora física, já que, os remédios do tratamento do HIV também são fortes e demandam uma alimentação específica para que o paciente não sofra com outras questões de organismo.
O caso de Lívia Helena é sensível. Entre os problemas de saúde, sua situação também se agrava por conta da depressão grave que enfrenta. A carga de viver uma rotina entre inadequação e perseguição pelos fantasmas da vida que um dia teve, servem de automutilação diária. Mesmo assim, após nos contar a sua história, Lívia Helena se levantou e nos abraçou novamente. Comentou sobre a sua data de aniversário, dia 12 de outubro, sobre seu signo, que é libra e que apesar disso, é uma mulher estourada e não esconde tudo o que precisa ser dito.
Ao receber um sorriso, mãos dadas e ser ouvida com cuidado, Lívia Helena teve outros sentimentos ali, sorriu e brincou com os presentes. A observamos sair, antes de tudo, alimentada, não apenas da refeição, mas de escuta e acolhimento.


Crédito: Hanna Kauanin Magalhães
Crédito: Giovanna de Moraes
O outro lado da insegurança, Sandro
Cidade de São Paulo. Uma metrópole carregada de contrastes conhecidos por todos, através de diversos lugares e também pela mídia. Entre as ruas e avenidas, as histórias mais diversas acabam aparecendo, como a de Sandro Aurélio, com 46 anos e morador da zona sul de São Paulo. O conhecemos na Missão Belém, uma iniciativa filantrópica que atua no combate à insegurança alimentar. Sua presença ali é como um colaborador, mas antes, Sandro já esteve no outro lado, ex-usuário de drogas, 13 anos livre do vício que quase lhe custou a vida.
Precisamos de dois encontros para que Sandro se sentisse confortável para nos contar sua história inteira. Ela começou nos anos 70. Uma infância cercada por amor e cuidado, era o filho do meio de cinco irmãos e todos passavam os finais de semana em um sítio de parentes na cidade de Embu das Artes. Iniciativa dos seus próprios pais, que faziam de tudo para que os seus filhos, depois de estudarem uma semana inteira, pudessem ter um local longe das buzinas e aceleração da cidade grande.
Morou com os país até os 20 anos, mas acabou se tornando usuário de drogas após influência de amigos, no começo, tudo de forma moderada e em tempos espaçados. Porém, após um período de uso, Sandro se tornou refém do vício. Os bailes e as festas sem horário para acabar começaram a adentrar sua rotina aos poucos. Em uma dessas saídas, ele conheceu a mulher que viria a ser mãe de suas duas filhas. O relacionamento se tornou tóxico. Diferente do lar de sua infância, a casa em que criou sua própria família não era nada harmoniosa. Brigas, desentendimentos e discussões exaltadas eram frequentes, contribuindo para que o relacionamento se desgastasse e encaminhasse para o fim.
Nesse meio tempo, ele também teve de lidar com a morte dos pais. Foi o estopim para sua entrega de vez às drogas. Abandonou sua casa e foi morar nas ruas. Foram 25 anos vivendo às margens da sociedade. Enfrentando a fome, olhares de julgamento, vícios, humilhações e uma vida sem dignidade. Dores de um passado que ele não se orgulha, mas não mede esforços para compartilhar.
Segundo os levantamentos do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua) junto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 84% das pessoas vivendo em situação de rua são homens. Além disso, o recorte racial também se faz presente, homens adultos e negros são a maior parte dessa realidade visivel, mas que muitos não querem observar.
Sandro continuou nos contando como foram os anos em que viveu nas ruas da capital paulistana. Hoje com um casaco puffer meio off-white e preto, relata as vezes que sentiu na pele os impactos do vício e da fome: “por inúmeras vezes, revirei baldes de lixo em busca de comida, cheguei a disputar restos com animais”. Sua dependência química e a falta de apetite o levaram a inanição, quando o organismo se encontra em um estado grave de desnutrição, causando uma perda rápida de peso e tornando o corpo bem mais propenso a doenças.
Ele nos levou até a rua em que costumava ficar. Mostrou o saco de lixo preto, antes a sua despensa. Ali, relembrou algo que o marcou para sempre, a dias sem comer, viu um homem que se alimentava de uma coxinha e ao perceber a presença de Sandro, entregou uma nota de dez reais. Sandro não pensou duas vezes, usou o dinheiro para comprar novas drogas, que naquele momento, eram seu alimento.
A situação chegou ao limite quando sofreu dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs), ficando entre a vida e a morte. Com a saúde extremamente comprometida e o corpo debilitado pela falta de nutrientes, uma assistente social que trabalhava em um albergue público que ele frequentava, o apresentou à Missão Belém. Lá, recebeu não apenas alimentação e abrigo, mas também a chance de recomeçar. Foi o início da mudança de sua vida, Sandro diz que a comida salvou seu corpo, mas o acolhimento que recebeu ali, salvou a sua alma.
Já dentro da iniciativa, ele começou a ser voluntário, ajudando diariamente nas ações de solidariedade desenvolvidas pela missão. Hoje, após cinco anos da sua entrada na Missão Belém e vividos dez anos limpo, ou seja, livre das drogas, Sandro se encontra no outro lado da história. Roupas limpas, banho tomado e o mais importante, alimentado.
Atualmente, coordena uma das unidades do projeto, um bazar solidário localizado na Vila Mariana, zona sul da capital. Ali, roupas doadas por moradores da região são vendidas a preços acessíveis e toda a arrecadação é revertida para a manutenção das ações da Missão. A administração da renda do bazar é feita por ele, que diariamente se compromete a ir à lotérica realizar depósitos para o setor financeiro da iniciativa. Comprometimento que antes passava bem longe de existir.
Quatro vezes por mês, sempre às sextas-feiras, o bazar se transforma em ponto de encontro para a solidariedade, além da venda, são distribuídos alimentos e roupas a pessoas em situação de vulnerabilidade: “hoje, eu ajudo quem vive o que eu vivi. É a forma que encontrei de agradecer e de devolver o que recebi”, conta. Atualmente, mora em um quarto alugado no bairro da Aclimação, onde possui cama, guarda-roupa, micro-ondas e tudo o que precisa para viver com mais dignidade. Sua alimentação, hoje garantida, é feita por ele em seu local de trabalho.
Embora sua história seja de superação, algo ainda o aflige, ele não passa um dia sequer sem pensar no afastamento de suas duas filhas, que ocorreu no período mais crítico de sua vida. É algo que relata com o coração apertado. Alega que as duas não querem uma relação mais próxima, ele entende e afirma que apenas está colhendo os frutos das escolhas feitas no passado.
Sandro não apenas retrata como instituições semelhantes à Missão Belém possam ajudar pessoas, não apenas em situação de insegurança alimentar, mas também outras em vulnerabilidade. Ou seja, mais do que matar a fome de quem precisa, esses tipos de iniciativas devolvem às pessoas algo essencial, a dignidade.

Crédito: Danilo Ferreira
Outras histórias, outros perfis, ONGS
O sábado se tornou um dos momentos da semana em que para diversas pessoas no centro de São Paulo, existia a certeza de que receberiam marmitas e voluntários. Na ONG Anjos da Noite, localizada na Artur Alvim, zona leste de São Paulo, seis panelas de inox brilham cheias. O trabalho já havia começado logo no sábado de manhã, voluntários cortavam pedaços de abóbora, separavam os grãos de feijão e cozinhavam o arroz, macarrão e frango.
Depois das separações, cozimento e tempero, as comidas estão em doze panelas, seis em cima do fogão e outras aguardando para serem postas no local quando estas acabarem. Uma das voluntárias, uma mulher idosa, com avental branco, cabelo claro e já preso pela touca, responde a nossa pergunta: “A panela de frango tem uns 5kg” e quando questionamos os outros voluntários sobre a quantidade de marmitas, recebemos a resposta de que é variada, podendo ser bem acima de 100.
O local é enorme, com uma cozinha grande, escritório, sala de espera, uma mini biblioteca e também subindo uma rampa, encontram-se quartos. Onde as pessoas poderiam dormir e descansar caso viessem na sexta-feira, já que algumas das preparações começavam naquele dia.
Porém, a construção daquele lugar foi contínua. A ONG começou de uma forma inesperada. Kaká Ferreira, seu fundador, conta que tudo começou no ano de 1989, a cidade de São Paulo chegava a mínima de 4°C e, quando estava voltando para casa, uma pessoa em situação de rua se aproximou do carro de Kaká para pedir ajuda. Mesmo com o frio, o homem usava uma bermuda e blusa toda rasgada. Kaká se lembrou que ainda tinha a mala de sua viagem a trabalho e emprestou prontamente suas roupas. Uma simples oferta para jantar resultou em um diálogo que ao relembrar, o emociona, deixando apenas uma lágrima escorrer de seu olho e descer pelo seu rosto já com as marcas da idade.
“Eles não vão me deixar entrar”, disse o homem e Kaká sabia o porquê, mas mesmo assim insistiu: “eu queria desconstruir aquela imagem que ele tinha, que ele não pode isso ou não pode aquilo porque ele é morador de rua. Ninguém é morador de rua, as pessoas estão nessa condição e as pessoas podem sair dessa situação.” Ao continuar, Kaká comenta que o homem o chamou de “anjos da noite”. No dia seguinte, após acordar de um sonho com o mesmo rapaz, ajudando-o a servir cumbucas de sopa, a ONG nasceu.
A ideia que começou com 100 pessoas sendo atendidas, hoje atende muito mais. A missão? “Resgatar a autoestima das pessoas em situação de rua, para possibilitar a reintegração social”, nos confessa o presidente. Para Kaká, o trabalho voluntário vai muito além de apenas ajudar a pessoa. Ele acaba ajudando você mesmo, aquele invisível perante a sociedade, se torna o seu igual. Ao estender uma garrafa de água, um prato de comida e o cobertor. Ele passa a estar olho com olho, não existindo distinção entre ninguém. “A maioria das pessoas que estão lá na rua, elas não tiveram apoio, nem governamental, nem de amigos, nem de família, elas estão perdidas ali, então se não tiver alguém ali para retrabalhar na autoestima dessas pessoas, não vai acontecer”. Uma das frases que Kaká reverbera com alegria e um sorriso é: “nós já conseguimos tirar algumas pessoas da rua.”
Uma vitória apenas para alguns. Mas apenas em São Paulo, de acordo com o último senso da própria prefeitura, a quantidade de pessoas em situação de rua na cidade é de aproximadamente 99 mil. Apesar de seu assistencialismo, Kaká e os voluntários que ajudam no centro da cidade não conseguem abraçar a todos. Depois da entrevista, ele nos deixa livres e quando o relógio começa a tardar às 19h, começam os trabalhos. Toucas são colocadas, conchas e outros talheres são erguidos e assim uma mini fábrica começa a rodar. Naquele dia, havia a presença de poucos voluntários, por volta de uns seis ou sete. Enquanto as marmitas de alumínio eram fechadas, outras eram preenchidas pela ordem: feijão, arroz, frango, macarrão e abóbora. O presidente da sede aparece e observa a quantidade de comida que estava sendo colocada, Kaká vira para uma de suas assistentes mais antigas, Sandra, uma moça de cabelo loiro curto, branca, batom vermelho bonito e diz: “pode colocar mais”
A produção aumenta: mais feijão, mais arroz, mais abóbora, mais frango e mais macarrão. As marmitas prontas vão todas para uma enorme caixa azul térmica, empurrada pela ladeira que o local tem e levada para uma das kombis azuis do próprio Anjos da Noite. Cerca de 200 marmitas foram feitas ali e agora, para orgulho de Kaká, com muito mais comida. Sua preocupação era genuína, muitas vezes aquela era uma das únicas refeições que aquelas pessoas fariam, porque não colocar mais?
Na primeira kombi, garrafas d’água também aparecem, afinal, pessoas também sentem sede. A segunda kombi é a que Kaká dirige e vem depois das com as marmitas e a água para trazer cobertores e, quando tem, roupas. Depois de uma reunião, o caminho segue. Não tão longo, mas dá para conversar, ouvir música e observar a arquitetura de prédios altos, casas e estradas de cimento se alternando para o centro histórico. Próximo a diversas lojas da Galeria Pajé, pessoas já vão formando filas.
Nessa visita, era perceptível alguns rostos novos. Porém, algumas figuras já ficaram gravadas no nosso olhar e inconsciente. O local onde num sábado anterior se tinha uma fogueira por conta do frio, hoje estava apagado pela falta dele. A fila sempre marca a presença de muitos homens, idosos, pessoas da comunidade LGBTQIA+ e em alguns momentos, estrangeiros.
Em um dos sábados passados, uma família de bolivianos se aproximou para conseguir pegar algumas marmitas. Eles estavam bem vestidos, incluindo os dois filhos que o casal parecia ter.
Mas em todos os períodos que estivemos presentes, o maior número de pessoas que pegavam as marmitas eram os idosos, em específico homens. Fazendo parte de uma boa parcela de pessoas que passam por insegurança alimentar, eles podem estar ali por diversos motivos.
Abandonados pelos seus entes queridos, aqueles que não tem para onde ir, ou até mesmo, como conta Tatiane: “quando se trata da situação de pessoas mais velhas, muitas das vezes eles já não apresentam os mesmos gostos ou hábitos alimentares e, por também poderem ser ou estar sozinhos, acabam passando pela insegurança alimentar”. Segundo o IBGE, no ano de 2023, os idosos eram 20,9% dos afetados pela fome. Marcados pelos estigmas sociais, marcas de sua velhice e histórias de quando jovens, se tornam outros nas ruas. Com novas histórias, novos conhecimentos e novos gostos alimentares, que podem acabar não sendo respeitados.
Um grupo composto por mulheres também estava na fila, entre elas, uma mulher trans. Com blusa verde limão, cabelos bem escuros e compridos, uma presilha no cabelo e calça jeans, estava pegando a marmita e se afastando junto ao seu grupo, como se estivesse com vergonha. Ao ser elogiada, ela abriu um sorriso tímido e agradeceu. Talvez não estivesse acostumada aos elogios. No estudo realizado pelo coletivo #VoteLGBT em parceria com a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) e a Abrasco, no ano de 2021, quatro a cada dez pessoas que fazem parte da comunidade, ou seja, cerca de 41,53%, viviam em insegurança alimentar.
Voltando a entrega, o Anjos da Noite costuma dar uma volta no quarteirão enquanto entrega as marmitas.
Para, se percebe pessoas dormindo ou que não se movimentaram ao ouvir o barulho do carrinho de marmita. Mas isso não impede os voluntários de se aproximarem e perguntam se querem a marmita ou a água. Escutamos duas frases mais comuns: “pode me dar mais uma?” e “pode me dar apenas uma garrafa?”. Quando se comenta que tem cobertas e até roupas, muitos vão direto ou perguntam se os voluntários podem pegar.
Um senhor idoso, já visto outras vezes, está sentado no degrau de acesso de uma das lojas. Mãos e rosto machucados. Percorridos por alguma doença, recebe a manta, também a comida, o talher e a água. Sua voz não sai, mas mesmo com o olhar perdido, agradece. Em outro momento, uma moça que mais poderia ter entre 40 a 50 anos aparece com muletas, sua perna machucada tem diversos pontos. Ela deita na sua “cama”, apenas papelão, em frente a uma das lojas e recebe ajuda da mesma pessoa, seus olhos ficam cheios de lágrimas, a gratidão pela marmita e ajuda com a manta são repetidas. Mas o que também chamou nossa atenção, foi o ato de ela guardar escondida as marmitas recebidas. Nos perguntamos agora se ela já perdeu a comida outras vezes, para querer mantê-las assim.
Do outro lado, um homem que aparentava ter entre 30 a 40 anos começa a conversar conosco, segurando sua marmita e garrafa d’água, diz seu nome e inicia sua história. Disse que fez coisas erradas, que a sua vida ali, sua situação, era apenas um karma acontecendo, justiça divina. Mas mesmo assim eles eram justificados, que as coisas ruins que haviam feito não eram em vão. Para ele, os fins justificam os meios. Seus erros são seu trabalho, comentava que ganha por volta de R$ 800,00, mas que isso não era o suficiente. Antes da conversa acabar, ele se vira e pergunta “podem rezar por mim?”, ele não queria que rezassem para que fosse salvo dali ou retirado, mas para que tivesse paz.
Enquanto comiam, uma barata estava querendo abrir voo. Eles comendo rápido e reclamando do inseto, enquanto a mulher dizia que não machucassem o inseto, que ele só sentia fome como eles… A barata não era o único animal que as pessoas em situação de rua convivem. Enquanto o voluntariado fazia suas voltas, ratos saindo do esgoto ou entrando eram visões comuns.
Naquele momento, já era quase meia noite. Nossa visita parou no local em que diversos caminhões que levavam os mantimentos para o Mercadão da 25 de Março estava. Um contraste. Enquanto entregavamos marmita, homens descarregavam caixas e mais caixas. O local conhecido por diversos turistas se torna vazio, sem comerciantes e compradores. Apenas com a presença daquelas pessoas consideradas invisíveis, arrumando suas caixas de papelão, consideradas “camas”, recebendo muitas vezes o único alimento e água que vão comer no dia.
Como realmente recuperar a autoestima de pessoas que já foram esquecidas por tantos e tem apenas o reflexo dos olhos do outro para se ver?
No sábado do outro final de semana, logo cedo, fomos fazer uma visita de campo em dois lugares, mas próximos um do outro. Zona norte de São Paulo, bairro do Limão. A primeira parada foi a Paróquia Arcanjo Miguel. Quando entramos para cumprimentar Gláucia Máximo, uma mulher negra e fundadora da ONG Ibrasac e coordenadora da entrega de cestas na igreja, conseguimos perceber as pessoas que estavam na missa. A maioria mulheres, muitas delas idosas e mulheres negras.
Quando a missa acabou e antes de iniciar sua ação, Gláucia, com seu cabelo cacheado, calça e blusa preta e um moletom de frio cor de rosa forte, parou em frente ao altar em que antes o padre estava para dar sua palavra. Começou a dar uma bronca nas pessoas. O motivo? Eles não levantaram para receber a comunhão, que para os católicos, representa o corpo e o sangue de Cristo. Aquela aparentemente não era a primeira “bronca” que eles levavam, mas poderia-se perceber os olhos admirados, envergonhados e sorrisos tímidos, que talvez decepcionaram mais uma vez, a sua figura de acolhimento.
De forma leve e divertida, Gláucia vai levando a todos os presentes, a maioria seus irmãos de fé a refletirem sua própria postura durante a missa. Depois dessa bronca, Gláucia começa a contar sobre as cestas básicas e a explicar sobre o seu projeto Ibrasac. As cestas ajudam diversas famílias, que assim, não precisam recorrer ao Ibrasac para se alimentar.
Para pegar o seu mantimento, as pessoas seguram o seu próprio RG, ou o celular com a foto do documento, chegam até os mesários, mostram o seu nome, esperando o “check” e vão pegar a sua quantidade de cestas.
Como membro da igreja católica, Gláucia explica os motivos de ocorrer uma missa antes da entrega das cestas: “o primeiro alimento é o espiritual, então se eu não te dar a palavra de Deus, então eu não te alimento de nada”. Enquanto ela fala, todos os presentes prestam atenção, Glaucia não é freira, não é o padre que sobe ao púlpito e reza a missa para essas pessoas e dá a alimentação espiritual, mas é a mulher que os alimenta fisicamente e acolhe.
Gláucia tem suas duas frentes: a entrega de cestas, que ocorrem na paróquia que ela faz parte. Sob sua coordenação e de Luciana, mais de 250 famílias conseguiram ser atendidas. E a Ibrasac, sua ONG, local onde Gláucia também deposita seus esforços e carinho. Tudo surgiu após seu trabalho na subprefeitura da Casa Verde.
Apesar da religiosidade e dos possíveis conflitos, Gláucia aceitou fazer um projeto envolvendo o carnaval, levando as festividades para a região periférica da cidade. Pediu para o padre benzer e no fim, deu certo… Tão certo que a levou para o seu antigo cargo na subprefeitura, praticamente braço direito do subprefeito. As pessoas a olharam torto, afinal, como ela mesma disse: “uma mulher negra, pobre e filha de pessoas desconhecidas”, atingindo um patamar que poderia ser o sonho de outras pessoas? Impossível, bom… Para os outros, não para ela.
Ela precisou aprender a lidar com olhares de julgamento, ou até mesmo de desprezo. O empoderamento próprio ocorreu com os saltos, batons e retribuindo o desconforto que tentavam fazê-la sentir. Quando chegava em reuniões, era recebida com: “estou esperando fulana”, Gláucia dizia “sou eu” e a pessoa, com um singelo e julgador barulho sonoro, só respondia “ah”.
Dentro de espaços de poder, mulheres negras ocupam apenas 3%, de acordo com a pesquisa do Instituto Ethos, enquanto para cargos como estagiários e trainees, sua presença supera até mesmo a de pessoas brancas.
“Eu quero trabalhar para o pobre”, revelou ela. Desse desejo de Gláucia, após conviver com pessoas que aparentavam duvidar de si, o Ibrasac começa a ser formulado. No começo, a estrutura não era nem de perto a que opera hoje. Natal solidário? Os brinquedos já chegaram a ser guardados no salão da igreja que hoje entrega as cestas, na casa de outros voluntários e na casa da própria Gláucia.
Seu trabalho talvez se reflita também no do Padre Júlio Lancellotti, dois católicos que seguindo os ensinamentos de Cristo, comunhão para que seus outros iguais tenham pelo menos o mesmo alimento.
Voltando a entrega de cestas.
Uma das mulheres havia trazido cinco RGs, pegar para ela e para os filhos o próximo alimento de seus dias. Era uma mulher negra, já idosa e aparentemente com algum problema de saúde, pelo que conta Gláucia. Ela vai até os homens que estão distribuindo as cestas e pede suas cinco. Indignada com a moça tendo que pegar cinco cestas pesadas, Gláucia vira para nós e comenta: “Você acha? Os filhos e os netos não podem vir buscar a cesta?”, a mulher abre um sorriso envergonhado. Apesar de todo o seu provável esforço na juventude deles, na sua velhice, eles não a retribuíram.
Juliana, uma mulher branca, de aparentemente até uns 40 anos, com os cabelos escuros e amarrados em um coque, sentada junto a filha, uma menina negra de cabelos cacheados, olhos observadores, presta atenção na movimentação. Enquanto sua mãe relata: “eu sempre trabalhei, mas parei depois que eu tive ela, porque não tenho rede de apoio, eu até fiz um acordo [quando trabalhava], mas eu não tô trabalhando”. Apesar do marido trabalhar, Juliana é a única que passa um tempo com a filha. Não tem com quem deixar, precisou trazê-la junto para conseguir pegar a cesta que vai às alimentar pelo mês talvez.
Apesar de tudo, alimentos saudáveis são caros. Juliana sente isso, mas a sua figura também representa a de diversos brasileiros, em específico os que moram nas periferias da cidade: “infelizmente, os alimentos mais nutritivos são caros. Muitas famílias acabam optando pelo que é mais barato, mesmo que prejudicial à saúde”, comenta Tatiane. Além disso, lares com a presença feminina, também podem sofrer mais insegurança alimentar ou pela jornada dupla de trabalho ou quando a mãe ao menos não consegue nem sair para conseguir trabalhar.
Depois da entrega das cestas, arruma-se a mesa que serviu de auxílio para os voluntários e varre-se o chão da casa de Deus. Seguiu-se a visita para o Ibrasac, a ONG na qual Gláucia estende sua mão e ajuda tantas outras pessoas a mais. Ao chegarmos, era possível perceber já algumas pessoas esperando o momento de almoço. Pessoas simples, que nos olhavam de forma desconfiada.
Glaucia nos disse para ficarmos à vontade. Café, chá, bolacha e pão foram servidos. O espaço pequeno próximo do local onde se comiam, já havia sido a cozinha da ONG, mas agora servia para que os funcionários conseguissem fazer suas refeições, enquanto já haviam ajudado tantos outros a fazer as suas. Glaucia pediu que uma de suas novas ajudantes, uma jovem chamada Giovanna, com cabelo colorido, blusa de moletom, tímida e estudante de medicina veterinária, mostrasse o local para nós.
Além dos locais onde se guardam algumas coisas, o escritório da Gláucia, que de acordo com ela mesma, irá aumentar bastante, existem salas de aula. Uma lousa, carteiras da cor azul, semelhantes às que são vistas nas escolas preenchem a sala de aula. Cozinha Escola, um projeto que agora têm auxílio da prefeitura completa aquela ação social.
Gláucia não passou apenas a alimentar aquelas pessoas com nutrientes. Ela passou a nutri-los com conhecimento. Cursos de cuidador de idosos, inglês e uma ideia de expansão com diversos outros que ela quer trazer, fazem com que aqueles indivíduos adquiram perspectiva de futuro. Um futuro diferente talvez do que a sociedade achou que eles merecessem.
Aquilo também ajudaria na autoestima daquelas pessoas. Conseguir um emprego, ajudar sua família, ver seus filhos tendo um ambiente para ficar ou brincar. Gláucia revive as esperanças mais internas, que muitas vezes a fome pode acabar coibindo.
Os voluntários começaram a colocar os alimentos: chá de hibisco, água, arroz, frango, macarrão, melancia e outros foram organizados. As marmitas começaram a ser colocadas em uma caixa semelhante a do Anjos da Noite para preservar a temperatura de tudo. O local no fim se assemelha a um grande salão com partes abertas. Gláucia também explicou que a cada momento, o cardápio muda, afinal, aquelas pessoas também merecem e precisam comer coisas diferentes.
Por volta das 13h, com um calor e sol tímidos, as primeiras pessoas subiram. Era possível perceber mais a presença de idosos e entre eles, bem mais mulheres e em sua maioria, mulheres negras. Alguns esperavam para pegar a marmita e portavam uma fichinha com a numeração. Outros iriam se alimentar ali mesmo, conversando e sorrindo, apesar das dificuldades que tudo tinha, que suas vidas tinham e o fardo que eles tinham.
Depois, subiram mais mães, pais, crianças, pessoas jovens e idosos. Os rostos mudaram, mas as semelhanças ainda poderiam ser percebidas, inclusive na questão racial daquelas pessoas. Havíamos levado a sacola de doces que nos levou até Lívia Helena, mas os doces também nos levaram a diversas crianças, que se aproximavam de nós com “Tio, tia, posso pegar um doce? Você pode me dar um saco de doce?”, um garoto de cabelo loiro e blusa do Corinthians, chamado Yuri, até mesmo desceu uma hora para chamar e poder pedir que desse o doce para o seu amigo. Alguns não se importaram de receber uma sacolinha com o que poderia ser a sua alegria no dia, ou até mesmo na semana.
Eles apenas abriam um sorriso, como se houvéssemos melhorado seu dia. Alguns receberam abraços e isso não se estendeu apenas para as crianças. Idosos também se aproximaram e pediram “Pode me dar um pouco do doce? É para meu neto, meu filho, meus bisnetos…”, chegou um momento que uma das crianças foi pedir e já não tínhamos mais os doces, porém de forma compreensiva ele entendeu e abriu um sorriso. Respeitaram a máxima “coma apenas depois do almoço”, brincaram e correram pelo salão que alimentava seus pais.
Criando uma memória diferente da que as pessoas idosas que estavam ali poderiam ter, de um momento em que a fome não sai de sua cabeça, de seu corpo e de sua dor, a provocação da mais máxima dor. Glaucia criou um ambiente em que aquelas pessoas se alimentavam de comidas variadas, não apenas do mesmo alimento, mas que nutricionalmente se afastava do que eles poderiam conseguir dos ultraprocessados ou pior, nem ao menos conseguir.
Gláucia começou a montar um ambiente em que se assemelha com aquilo que ela acredita.

Crédito: Giovanna de Moraes

Crédito: Giovanna de Moraes
Crédito: Giovanna de Moraes
Crédito: Giovanna de Moraes
Crédito: Lucas Neves
Assistencialismo público e a fome
A fome sempre foi um fator na sociedade brasileira, incluindo na paulistana. Como forma de conseguir combater esse tipo de gravidade, o governo e até mesmo as prefeituras acabaram criando redes de apoio para essas populações que passam por insegurança alimentar.
O Bom Prato é uma dessas opções. Fundado em 2000, no dia 28 de dezembro, ele surgiu com a missão de oferecer refeições nutritivas e de qualidade a preços acessíveis para a população em situação de vulnerabilidade. Durante os seus 25 anos de existência, o valor das refeições continua o mesmo: almoço e jantar R$ 1,00 e o café da manhã R$ 0,50.
Atualmente, a rede de restaurantes populares conta com 121 pontos de atendimento em todo o estado de São Paulo, sendo 71 unidades fixas, 47 unidades móveis e 4 refeitórios. Juntas, essas estruturas fornecem cerca de 145 mil refeições por dia, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado.
“Um dos maiores desafios é lidar com cada pessoa com dignidade. Muitos clientes são usuários de drogas, consomem bebida alcoólica e não estão sempre na mesma condição. Além disso, há um grande número de funcionários envolvidos, o que exige coordenação e gestão cuidadosa para que tudo funcione bem”, relata Aline, supervisora de nutrição do Bom Prato de Ferraz de Vasconcelos.
Os bancos de alimentos da cidade também podem acabar se tornando uma opção para as pessoas que precisam se alimentar. Eles recebem de mercados, feiras e empresas que trabalham na área da alimentação diversos alimentos para conseguir ajudar as famílias que os procuram. Durante a pandemia, na Zona sul da cidade, em Campo Limpo, eram servidas cinco refeições para as crianças que foram cadastradas na época da pandemia.
Como outras formas de auxiliar essas pessoas, foi criado em 2001 a Comusan, que reuniu representantes do poder público, sociedade civil e entidades voltadas à segurança alimentar e nutricional para dar consultas, acompanhamentos e fiscalizações nas ações do governo municipal em relação à alimentação. “Com base nos resultados, o conselho analisou o programa de metas da Prefeitura de São Paulo e percebeu que o tema [insegurança alimentar] não era tratado como prioridade. Apesar de haver equipamentos e projetos específicos, o programa não tinha linha de base nem utilizava os dados do inquérito para orientar suas ações”, explicou Vera Vilela.
Metas foram estipuladas: eliminar a insegurança alimentar leve e moderada a curto prazo, reduzir em 20% a insegurança alimentar grave até 2028 e diminuir a insegurança hídrica em 20% ao ano, também até em 2028. Esses detalhamentos foram trazidos por Vera Vilela, presidente da Comusan na época.
Porém, apesar das políticas públicas e de investimentos não governamentais, com as ONGS ou até mesmo atitudes de cidadãos comuns, a insegurança alimentar diminuiu, mas ainda persiste nas camadas que mais sofrem com a desigualdade. Em especial, para pessoas negras, mulheres, mães solo, idosos e outros grupos minoritários.
A insegurança alimentar revela a despensa da sociedade com os seus próprios cidadãos, renegados pelo que a comunidade aprendeu a dividir desde sempre, a comida.

Unidade do Bom Prato - Divulgação
Expediente
Estudantes do sétimo semestre de Jornalismo



























